[Boa Ideia] Livro de plástico dá aula de ecologia: é reciclado e dura mais

Para tentar organizar o conteúdo que entra no nosso blog, vamos incluir algumas tags diretamente no título. Esperamos ter várias [boas ideias] para compartilhar. Se você conhece uma boa ideia que foi implantada e está fazendo diferença no Brasil, no mundo ou mesmo na esquina da sua casa, mande pra gente.

Texto original no site da Revista Época.

A lição ecológica do livro de plástico

Escolas técnicas de São Paulo adotam livros didáticos feitos com sacolas e garrafas recicladas. Além de reduzir o lixo, eles duram mais

Marina Franco

Rogério Cassimiro/Época

IMERSÃO
Um livro didático de plástico do Centro Paula Souza na água. Ele pode ser usado por mais alunos e por mais tempo

Aquela velha desculpa escolar de que o suco caiu na lição de casa, que o irmão mais novo rasgou a página do exercício ou que o cachorro mastigou o livro vai acabar. Pelo menos para os alunos de informática das escolas técnicas vinculadas ao Centro Paula Souza, de São Paulo. Eles estão usando livros que se assemelham aos comuns, mas foram produzidos com plástico reciclado. As folhas lembram o papel-cuchê, geralmente empregado em livros de fotos, folhetos publicitários e revistas. É possível escrever normalmente, a caneta e a lápis. Mas os alunos perceberão algumas diferenças: a folha de plástico não absorve líquidos, não rasga e, por isso, dura mais tempo.

Uma boa solução para livros didáticos, que em geral devem ser usados por mais de um aluno. Foi isso que chamou a atenção da coordenação do Centro Paula Souza, que administra escolas e faculdades técnicas no Estado de São Paulo. A instituição comprou 170 toneladas do papel de plástico e mandou imprimir mais de 260 mil livros didáticos. “Esses livros vão ficar na escola e serão manipulados por três turmas: manhã, tarde e noite”, afirma Fernando Almeida, coordenador do núcleo de educação da Fundação Padre Anchieta, que comprou o material em parceria com o Paula Souza. “O material tende a ser sujo até por alimentos. É bom que tenha resistência.”

Para Almeida, o livro de plástico é uma lição ambiental em si. “O bom aproveitamento do papel também ensina ao aluno que o compromisso em preservar o meio ambiente vai além do que é dito nas aulas de biologia.”

A folha sintética é uma tecnologia brasileira, desenvolvida e patenteada por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), do interior de São Paulo, em parceria com engenheiros da empresa de embalagens Vitopel. Sua produção parte de resíduos como sacolas, garrafas e frascos descartados e encaminhados a cooperativas de reciclagem. O princípio da pesquisa feita na Ufscar era aproveitar melhor o material descartado. O grupo, coordenado pela engenheira de materiais Sati Manrich, pesquisou durante dez anos e recebeu US$ 4 milhões da Vitopel. “O plástico é ruim se for para o lixo. Mas, se descobrirmos mais formas de reaproveitá-lo, deixa de ser um resíduo problemático”, diz Sati. “Todo esse processo de fabricação usa menos energia e água que o ciclo convencional de produção do papel comum.”

Antes de as primeiras amostras serem produzidas na fábrica da Vitopel, o grupo teve de fazer ajustes na quantidade de aditivos acrescidos à mistura plástica. O desafio foi adequar as proporções de aditivos para gerar resistência, densidade, alvura e brilho específicos do papel. Isso porque as folhas são feitas com misturas de diferentes plásticos (de uma sacolinha ou um pote de iogurte), com características distintas.

A fabricação do livro começa depois que o lixo, triturado e limpo, chega à fábrica da Vitopel, em Votorantim, São Paulo. Cada tonelada do papel plástico usa 850 quilos de lixo plástico. O plástico triturado é misturado, derretido e recebe os aditivos, além do pigmento branco. Depois de resfriado, entra em uma longa máquina de quase 70 metros de comprimento para ser fundido novamente e esticado diversas vezes, até que vire uma fina placa, como uma folha de papel, de 0,03 milímetro de espessura. Puxada por um cilindro, é enrolada em uma grande bobina, de cerca de 4 toneladas, como as de papel que vão para as gráficas comuns. Depois, dependendo da gramatura encomendada por uma gráfica, passa por uma máquina de laminação para ficar mais grossa e é cortada. A folha sintética, menos porosa, também exige 20% menos tinta que o papel, segundo a Vitopel. Em compensação, exige um tempo maior para secar na gráfica. Ou o uso de uma tinta mais cara, capaz de secar mais rápido.

O custo ainda intimida. Uma folha de papel de plástico sai por cerca de R$ 8, quatro vezes mais que o papel-cuchê, com características equivalentes. José Ricardo Coelho, presidente da Vitopel, diz que o preço pode diminuir muito se houver aumento de escala. Segundo ele, o volume atual de produção, de 100 toneladas fabricadas por mês, poderia ser dez vezes maior. “Depende de mais lixo reciclado, além do aumento da demanda.”

A impressão também é mais cara que a convencional. “A parte mais difícil foi encontrar uma gráfica que fizesse por um bom preço e qualidade”, diz a pedagoga Luciana Müller, que publicou com sua família o guia de ecoturismo Para onde vamos?, de plástico. “Mas os valores de preservação ambiental que o uso do material transmite compensam o preço.”

O primeiro livro de plástico do qual se tem notícia foi produzido na China, em 2006, pelo pesquisador americano William McDonough. A Vitopel afirma que sua tecnologia é a primeira a usar material reciclado. “Minha ideia inicial foi mais para livros didáticos, pelo conceito desse material ser sustentável, mas aposto no mercado de livros em geral”, diz Sati. O material pode ser usado em rótulos, encartes, outdoors, etiquetas e convites. Se essa novidade se provar economicamente viável, poderá ajudar a quebrar o preconceito contra o plástico, que ganhou fama de vilão do meio ambiente.

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