O Brasil vive, enfim, o sonho brasileiro. Quem pode nos ajudar a avançar ainda mais?

É claro que não faltam mazelas para apontarmos e nos queixarmos. Mas o fato concreto é que “nunca antes na História desse país” houve um conjunto tão favorável de fatores nos conduzindo à frente. E bem!

Apesar de todo o esforço que o pesado Estado tem feito para inibir o crescimento em diversas áreas, o Brasil vai criando uma classe média consumidora, consumista e enorme.

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Matéria muito bem feita por Alexandre Teixeira com reportagem de Darcio Oliveira e Raquel Salgado para Época Negócios (aqui para assinantes).

O sonho brasileiro

Ao se tornar uma sociedade de classe média, o Brasil eleva seu padrão de consumo e inaugura um ciclo virtuoso comparável ao dos EUA no pós-guerra. Pesquisa da Synovate revela um brasileiro otimista, mas preocupado com a (falta de) qualidade da educação.

Enfim, depois de duas décadas de dificuldades econômicas severas, depois de muita luta para reformar “uma nação marcada por uma grande desigualdade econômica”, o país começou a fazer jus à denominação “sociedade de classe média”. O aumento dos salários e da renda levou dezenas de milhões de pessoas “de bairros miseráveis nas regiões urbanas ou na pobreza rural à casa própria e a uma vida de conforto sem precedentes”. A autoestima da população elevou-se com a sensação de deixar de ser “uma terra de grandes desigualdades com relação à riqueza e ao poder, onde um sistema político nominalmente democrático não conseguia representar os interesses econômicos da maioria”. A “ideia de um papel governamental ativo na economia” tornou-se respeitável. A segurança econômica atingiu níveis sem precedentes – e a demografia passou a funcionar como vento a favor para o país. Embora ainda haja injustiça social, a maioria das pessoas leva “uma vida material reconhecidamente decente e similar”.

O que parece ser uma superlativa – e um tanto ingênua – descrição do Brasil de hoje é, na verdade, a tradução, em pinceladas socioeconômicas, dos Estados Unidos dos anos 50 e 60, depois de superadas a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial. Esse país emerge de A Consciência de um Liberal, de autoria do economista e Nobel americano Paul Krugman, recém-lançado em português. Mas a coincidência entre os Estados Unidos de então e o Brasil de hoje começa a ser notada por um bom número de economistas e sociólogos das mais divergentes colorações políticas. “Os Estados Unidos do pós-Guerra e o Brasil de hoje vivem a antevéspera de uma expansão fenomenal”, afirma Bolívar Lamounier, doutor em ciência política pela Universidade da Califórnia e sócio-diretor da Augurium Consultoria. Àquela altura, os Estados Unidos estavam emergindo como uma potência mundial, uma sociedade de consumo extremamente próspera e mais igualitária. O Brasil, por sua vez, tendo feito progressos importantes nas duas últimas décadas, assiste ao surgimento de uma nova classe média. “Há, portanto, uma clara semelhança psicológica. Um otimismo, uma sensação de pujança, de que o futuro está ao alcance da mão”, diz Lamounier.

O período do pós-guerra inicia um ciclo de crescimento fundamental para os Estados Unidos, que se prolongou até os choques do petróleo nos anos 70. Foram mais de duas décadas de expansão econômica e prosperidade. Se é verdade que o Brasil vive um momento similar, é possível ver à frente um vasto leque de oportunidades – acompanhado, inevitavelmente, por um punhado de riscos.

Uma pesquisa realizada com exclusividade para Época NEGÓCIOS pela Synovate, consultoria paulistana de pesquisas, em julho, revela os anseios do brasileiro concentrados em torno do tripé família, estabilidade e desenvolvimento profissional – independentemente de classe social e região. “O brasileiro é mais individualista do que societal”, afirma Sérgio Pinto, diretor de Novos Negócios da Synovate e coordenador do levantamento. “Ele pensa assim: ‘Se estou subindo na vida, estou consumindo e o país está indo bem’.” É uma forma de pensar facilmente associada ao típico individualismo americano. O levantamento, que resultou de 1,5 mil entrevistas com homens e mulheres de 18 a 60 anos das classes A, B e C em 12 cidades brasileiras, revela que cidadãos da classe C e jovens hoje têm ambições que tradicionalmente eram privilégios das classes A e B e dos consumidores mais velhos. Em especial, a compra de um imóvel novo. Mas também a aquisição de um carro ou de uma moto, de telefone celular, computador com acesso a internet ou pacote turístico para conhecer o país – de preferência a bordo de um avião.

Tecnicamente, quase metade da população brasileira hoje faz parte do que se convencionou chamar de “nova classe média”. Não é, ainda, uma classe média americana, com dois carros na garagem. Mas seu padrão de renda enquadra-se na que, internacionalmente, é considerada a camada intermediária da pirâmide social. De 2003 a 2008, 19,5 milhões de brasileiros deixaram de ser pobres, estatisticamente, e 31,9 milhões passaram a pertencer às classes A, B e C. Em síntese, a pobreza no Brasil caiu 41%. Hoje, as famílias com rendimentos mensais entre R$ 1,2 mil e R$ 4,8 mil, enquadradas na classe C, concentram 40% da renda total brasileira. É uma classe média autossustentável, com capacidade de gerar renda e acumular ativos com o próprio trabalho, sem ajuda do governo.

Isso não é pouca coisa para um país com um histórico chocante de desigualdade social, o qual, deve-se dizer, está longe de ser revertido. Um relatório do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), divulgado no final de julho, posiciona o Brasil em terceiro lugar no ranking dos países mais desiguais do planeta. A ONU afirma que o Brasil tem baixa mobilidade socioeconômica e só perde para Bolívia e Haiti na amplitude da diferença entre ricos e pobres. Quando da divulgação dos dados, porém, o economista Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas (FGV), ponderou que, embora o nível de desigualdade do país seja de fato muito alto, o progresso nesse campo tem sido bastante rápido. O ranking do PNUD está defasado, já que utiliza indicadores anteriores a 2006 – e de lá até pelo menos 2008 a queda da desigualdade avançou rapidamente no Brasil.

CRISE SUPERADA

É verdade que, devido à crise financeira mundial, o ritmo de redução da pobreza despencou entre dezembro de 2008 e dezembro de 2009. Mas o processo não chegou a ser interrompido. A proporção de pobres entre os brasileiros encolheu mais 1,5%. Já ao final de 2009, os indicadores sociais brasileiros haviam voltado aos patamares pré-crise. Somadas, as classes A, B e C alcançaram em dezembro último o recorde histórico de 69,2% da população. Permaneciam na base da pirâmide social – a chamada classe E, com renda familiar total de até R$ 804 mensais – 17,42% dos cidadãos. A diferença, 13,38%, corresponde à classe D. Pelas contas de Neri, se o país mantiver o ritmo de crescimento econômico e redução da desigualdade que imprimiu de 2003 a 2008, será possível reduzir a pobreza pela metade em mais cinco anos. Nesse caso, a faixa de brasileiros estatisticamente pobres cairia dos 16% da população registrados em 2008 para 7,9% em 2015. E a classe C aumentaria 14,7%, subindo de 49,2% para 56,48%.

A comparação com o pós-guerra americano ganha força quando se olha, também, para o mercado de trabalho. “Em termos econômicos, os anos 60 não poderiam ter sido melhores. (…) Era uma economia que aparentemente propiciava emprego para todo mundo”, afirma Krugman em seu livro. Neri não chega ao ponto de dizer que a economia brasileira hoje gera emprego para todos, mas reconhece que o atual momento é histórico. “O que podemos dizer é que o Brasil nunca teve indicadores tão bons de renda, trabalho e formalização do emprego”, afirma. No período do milagre econômico (décadas de 60 e 70), embora a economia tenha crescido até mais do que no ciclo atual, a distância entre os mais ricos e os mais pobres aumentou quase na mesma medida. Agora, o cenário é outro. “A desigualdade social nunca caiu tanto quanto o que tem sido visto desde 2001”, diz Neri. “Em algumas áreas, podemos dizer que há uma espécie de pleno emprego, porque há um apagão de mão de obra qualificada.”

Sônia Rocha, pesquisadora do Instituto de Estudos do Trabalho e da Sociedade, sustenta que o que ajudou o Brasil a ser, pelo menos em termos de renda, uma sociedade de classe média foi a redução da desigualdade social, mais em decorrência da recuperação do mercado de trabalho do que dos programas de transferência de renda. No período entre 1995 e 2003, a quantidade de brasileiros empregados cresceu a uma média anual de 1,6%. A partir de 2004, a taxa de ocupação passa a crescer ao ritmo de 2,4%. A correlação entre esta aceleração e a redução da pobreza é evidente. Entre 1995 e 2004, a proporção de pobres na população brasileira variou microscopicamente, para pior: de 33,2% para 33,3%. De lá até 2008, porém, este número caiu bruscamente para 22,8%. Neste último período, a renda total das famílias brasileiras aumentou 31,2%.

Em A Classe Média Brasileira, Lamounier e o também cientista político Amaury de Souza classificam a ascensão da chamada nova classe C como um dos fenômenos sociais e econômicos mais importantes da história recente. “Sob diversos aspectos, parecem estar se repetindo, em escala ampliada, os processos que levaram, há mais de meio século, ao surgimento da classe média dos países mais industrializados”, afirmam. Nos países em desenvolvimento, estima-se que 400 milhões de pessoas pertençam ao que foi batizado de “classe média global”, e projeta-se que outros 2 bilhões sejam incorporados até 2030. Entre 1990 e 2004, a classe média quase dobrou de tamanho na maioria dos países em desenvolvimento.

“No Brasil, estamos apenas começando esse processo”, disse Lamounier a Época NEGÓCIOS. “O grosso da mobilidade ascendente que presenciamos nas últimas duas décadas se deu dos muito pobres, dos miseráveis mesmo, para a base da pirâmide.” Predomina, portanto, um padrão bem modesto de rendimentos, educação e ocupação. A novidade é que há mobilidade. “As pessoas querem consumir mais, não estão resignadas à pobreza. Querem ganhar mais, estudar mais, trabalhar mais”, diz. Mas esta ainda é uma classe média muito pobre, o que reflete a extrema desigualdade de renda que ainda persiste no Brasil.

[Otimista, esperançoso e individualista, consumidor da classe A à classe C anseia por estabilidade, desenvolvimento profissional e conforto da família – e sente falta de melhor educação. Confira principais pontos da pesquisa Synovate/Época NEGÓCIOS.]

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O SONHO DA CASA PRÓPRIA CHEGOU
O casal Adriano e Claudete, o filho Rafael e o sobrinho Cristian posam em frente à casa que a construtora HM vai lhes entregar este mês, na periferia de Campinas. O imóvel, de R$ 90 mil, foi financiado em 30 anos, mas os Oliveira planejam pagar em cinco. A família mora há dez anos na casa do pai de Adriano. “O que melhorou não foi minha vida, mas as condições de compra”, diz Claudete

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DEMANDAS REPRIMIDAS

O período do pós-guerra, nos Estados Unidos, é lembrado como uma época de fartura e de atendimento de demandas havia tempo reprimidas. Depois da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial, o consumidor americano podia ir às compras sem medo pela primeira vez em quase 15 anos, fosse para adquirir um carro ou uma máquina de lavar. Essa redescoberta do consumo serviu de estímulo ao setor industrial. “O mesmo ocorre hoje com a ascensão da classe C no Brasil”, afirma o brasilianista Albert Fishlow, professor emérito da Universidade Colúmbia.

Nunca na história do Brasil houve algo semelhante. “Nossa industrialização toda foi feita com base na substituição de importações, inicialmente de bens de consumo e depois de toda a cadeia produtiva”, afirma o economista Marcos Fernandes Gonçalves da Silva, da FGV de São Paulo. “O velho argumento de Celso Furtado faz sentido. Criamos um aparato industrial que não produzia bens de consumo de massa de forma a promover o crescimento do mercado interno e a redistribuição de renda.” Pelo contrário. A substituição de importações foi baseada na fabricação doméstica de produtos de alto valor agregado – basicamente, automóveis e eletrodomésticos para uma elite consumidora. Agora, o crescimento econômico e o desenvolvimento social estão sendo retomados com base num mercado interno formado pelas camadas mais baixas da sociedade. “Isso é positivo em termos econômicos e é bom para os negócios. A nova classe média é um seguro contra as intempéries externas”, afirma Gonçalves.

A expressão “sonho americano” por vezes é usada quase como sinônimo para casa própria, um símbolo de status social que separa os americanos de classe média dos pobres. Historicamente, fala-se no “sonho da casa própria” também entre os brasileiros. Hoje, com o crédito finalmente tornando-se mais acessível no país e as facilidades introduzidas pelo programa de habitação popular “Minha Casa, Minha Vida”, a troca do aluguel e da moradia precária pela escritura de posse do imóvel volta a ser vista em larga escala. Apesar do surgimento de novas e importantes demandas, o grande sonho do brasileiro ainda é a casa própria – representação mais palpável do momento do país. Viagem ou carro são “apenas” aspirações. “O carro é um facilitador. Ao mesmo tempo, significa conquista, realização”, diz o pesquisador Sérgio Pinto. “Definitivamente não é o sonho de uma vida.” Da amostra de entrevistados da Synovate, 31% querem comprar uma casa nos próximos 12 meses. Este desejo encontra sua maioria estatística na faixa etária entre 18 e 45 anos e nas classes B e C.

“Na HM, quem comprava a casa para o filho era o pai. Até porque o filho não tinha renda”, afirma Henrique Bianco, fundador da construtora voltada para o público de baixa renda que hoje pertence ao grupo Camargo Corrêa. Historicamente, predominavam na carteira de clientes da empresa pessoas com mais de 50 anos. De seis ou sete anos para cá, isso começou a mudar. Hoje, 70% da clientela da HM tem de 22 a 30 anos. Antes do “Minha Casa, Minha Vida”, para comprar um imóvel, por modesto que fosse, o brasileiro de baixa renda enfrentava uma taxa de juros de, aproximadamente, 8,5% a 9% ao ano. Com o programa, lançado em abril do ano passado, essa taxa foi reduzida para 4,5%. Em menos de um ano e meio, isso propiciou a aquisição de quase 800 mil unidades, algo sem precedentes no mercado brasileiro.

De uma vez só, esse consumidor teve sua renda melhorada, beneficiou-se de uma ascensão de classe – saiu da D e foi para a C – e de um mercado de trabalho mais pujante e formalizado. Muitos jovens matricularam-se em cursos profissionalizantes e passaram a ter carteira assinada. Ganharam, assim, acesso ao mercado imobiliário. São esses os novos clientes da HM. Jovens casais, recém-casados ou na iminência de se casar. Em geral, ambos trabalham e estão saindo da casa dos pais. Por isso, em 90% dos casos, os imóveis vendidos pela construtora são primeira moradia. Os 10% restantes mudam-se de conjuntos habitacionais construídos no passado por BNH, Cohab ou CDHU, sem nenhum item de lazer ou segurança. Ou, simplesmente, deixam de pagar aluguel. “Hoje é fácil para uma pessoa que paga R$ 450 de aluguel encontrar no mercado um produto melhor para comprar, em condomínio fechado, pagando a mesma coisa”, diz Bianco. Sua meta é chegar a dezembro tendo vendido 7 mil unidades.

Uma delas será entregue neste mês de agosto, na periferia de Campinas, para Claudete Oliveira, seu marido, Adriano, e o casal de filhos, Rafael e Camila, de 13 e 11 anos. Eles escolheram o tipo de habitação mais vendido pela HM, uma casa térrea de 48 metros quadrados em um terreno de 150 metros quadrados em bairro planejado. Cada unidade dessas custa cerca de R$ 90 mil – em julho, a construtora não tinha nenhuma disponível para venda. A família toda é de Muzambinho, no Sul de Minas, e está em Campinas, no interior de São Paulo, desde 2000. Adriano, hoje com 39 anos, e Claudete, com 41, trabalharam como comerciantes por quatro anos, mas, depois do sexto assalto à loja Coisas de Minas, que mantinham no térreo da casa onde moram até hoje, desistiram do negócio próprio. Claudete, formada em gestão empresarial, foi aprovada em um concurso público e tornou-se secretária do diretor acadêmico da Unicamp. Adriano, advogado, trabalha com vendas de equipamentos para videocirurgias, como a laparoscopia.

A família mora há dez anos na casa do pai de Adriano. Nos últimos tempos, viram-se bombardeados pela publicidade de imóveis. “Em todo semáforo que a gente passava, tinha alguém entregando anúncio de casa, de apartamento”, diz Claudete. “Eu comecei a olhar. Ele achava que não dava.” O casal fez um financiamento de 30 anos, mas pretende pagar em cinco. A estratégia é esticar o prazo para encolher as parcelas. Mas a cada dois anos é possível abater o principal usando o FGTS. Quando os prazos de financiamento eram mais curtos, as prestações não cabiam no orçamento, já que a prioridade é a mensalidade da escola das crianças – que estudam em um colégio particular e contam com bolsas de estudo de 40% cada um. O casal ganha hoje, basicamente, o mesmo de antes, e as despesas se mantiveram no mesmo nível. “Não foi a minha vida que melhorou. Foram as condições do mercado de habitação que facilitaram a compra”, afirma Claudete.

No ritmo em que cresce a demanda por crédito habitacional, a Caixa Econômica Federal (CEF) estima que a verba para casa própria não será suficiente. Depois da alta de 95% nos empréstimos para habitação no primeiro semestre, a CEF admite que precisará de fontes alternativas de recursos em três anos. Hoje, 65% dos depósitos na poupança vão para crédito habitacional. A demanda por empréstimos, porém, cresce mais do que as aplicações nas cadernetas. Só de janeiro a junho, foram liberados R$ 34,1 bilhões para este fim. Boa parte desse montante foi direcionada ao “Minha Casa, Minha Vida”, programa que atraiu 38% de todo o crédito ofertado em 2009 e 2010. Ao que tudo indica, é só o começo. No estudo “Brasil Sustentável – Potencialidades do Mercado Habitacional”, a consultoria Ernst & Young e a Fundação Getulio Vargas demonstram que, apesar do aumento considerável no número de financiamentos imobiliários registrado nos últimos anos, o volume está longe de alcançar o recorde de 1980, no auge das operações do extinto BNH.

Isso se traduz por imensas oportunidades. Pelas contas da consultoria, o faturamento das construtoras saltará do patamar de R$ 53,5 bilhões atingido em 2007 para R$ 129,6 bilhões em 2030. No mesmo período, o crédito imobiliário concedido anualmente crescerá de R$ 25,3 bilhões para R$ 290,4 bilhões. Até 2030, o número de famílias no Brasil saltará de 60,3 milhões para 95,5 milhões – um crescimento de 58%, que representa mais do que o dobro da média mundial. Considerando uma expansão econômica média de 4% ao ano, em um contexto de alta mobilidade social e redução gradativa da taxa de juros dos financiamentos habitacionais para 7,5% ao ano em 2030, a Ernst & Young calcula que 37 milhões de moradias surgirão no país, com 1,6 milhão de novas residências a cada ano, em média.

À medida que se sobe na pirâmide social, os anseios habitacionais, naturalmente, se sofisticam. Uma pesquisa desenvolvida para o trabalho de construção da marca Agre – incorporadora criada pela fusão de Abyara, Agra e Klabin Segall, adquirida em maio pela PDG Realty – mostra que, entre consumidores de renda mais alta, o sonho da casa própria é o dos jovens que vão comprar o primeiro imóvel. Os demais sonham com a melhora da sua qualidade de vida, o aumento do seu patrimônio e a troca do imóvel por um melhor. Mesmo entre os jovens, é comum encontrar rapazes e moças que adiam cada vez mais a saída de casa para investir em suas vidas acadêmicas e profissionais. É a chamada Geração Canguru, que conquista algum grau de liberdade e privacidade na casa dos pais enquanto trabalha para alcançar o mesmo padrão financeiro deles e, só então, emancipar-se. Seus quartos são verdadeiras ilhas de individualidade, equipadas, por exemplo, com micro-ondas e frigobar próprios.

O comprador de imóveis no Brasil de 2010 é um ser aspiracional. Um consumidor vaidoso, preocupado em emergir. Para ele, trocar de imóvel é parte do processo de prosperar. A pesquisa da Agre associa fortemente imóveis a qualidade de vida – e não apenas à tradicional segurança da casa própria. “O sonho hoje é muito variável”, afirma João Nery, vice-presidente de operações da incorporadora. O investimento na compra de um imóvel concorre com o sonho de estudar em Harvard ou de passar um ano viajando. Uma das pesquisas da Agre revela que 57% das pessoas demoram menos de dois meses entre a decisão de adquirir um imóvel e a efetivação da compra. Setenta e três por cento pesquisam cinco empreendimentos ou menos antes de assinar o contrato. “A aquisição de um apartamento não é mais a compra da vida, embora, obviamente, seja importante”, diz Nery.

Por volta de 1955, além de casa própria, a maioria das famílias americanas possuía um carro – símbolo da faceta mais consumista do “sonho americano”. Isso ainda está longe de se materializar no Brasil, mas vontade não falta: dos brasileiros entrevistados pela Synovate, 40% afirmam querer comprar um carro novo – e 14%, uma moto– nos próximos 12 meses. Além da constatação óbvia de que um automóvel significa mais conforto para o proprietário e sua família, uma parcela considerável (mais de 59% em todas as classes sociais) o vê como um prêmio pessoal. Para 63 de cada 100 consumidores da classe C, o carro é “um sinônimo de que venci na vida”. Para 40% dos consumidores na faixa entre 49 e 60 anos, o veículo serve para “mostrar quem eu realmente sou”. Por essa lógica, a compra de um automóvel novo pode selar uma volta por cima para quem viveu dias difíceis quando a economia do país patinava.

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UM ZERO-QUILÔMETRO DEPOIS DE 20 ANOS
Em junho, o engenheiro paulistano Dulphe dos Santos entrou numa concessionária para trocar seu Peugeot 2002. Acabou mantendo o carro e saiu com um Voyage zero de R$ 32,7 mil. Ele, a mulher, Mônica, e a filha, Ana Carolina, já tiveram carro novo, há 20 anos, além de casa própria. Com a economia patinando, voltaram aos usados e ao aluguel. “Agora, botamos muita fé em que as coisas estão mudando para melhor”, diz Santos

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OS PESSOA AGORA VIAJAM DE AVIÃO
No dia 9 de julho, a família Pessoa, de Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, chegou a São Paulo a bordo de um Boeing da Gol. Foi a segunda viagem de avião do casal Edmilson e Sara e de seus filhos, Matheus e Gabriel, à cidade, para visitar parentes. Em ambas as vezes, as passagens da família foram pagas em seis prestações, sem juros.“Ao meu redor, vejo que está todo mundo muito melhor”, afirma Edmilson

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PROSPERIDADE SOBRE RODAS

Em junho passado, Dulphe Antônio dos Santos, um engenheiro metalúrgico paulistano, fez uma visita à concessionária Volkswagen Amazon, na Moóca, Zona Leste de São Paulo, interessado em trocar seu Peugeot 2002. Carro zero ele comprara uma única vez, 20 anos atrás. Agora, com emprego novo e economia aquecida, achou que dava para repetir a dose. O plano saiu melhor que a encomenda. “Acabei ficando com o Peugeot e saí de lá com um Voyage novinho”, diz. Santos, 52 anos, deixou recentemente a empresa de logística onde trabalhou por 13 anos e hoje administra cronogramas de projetos em uma empresa de engenharia. “Passei um período terrível, sem confiança no futuro”, afirma ele. “Agora boto muita fé em que as coisas estão mudando para melhor.” Sua mulher, Mônica, é assistente social em uma ONG que atende crianças e adultos autistas. O casal de filhos está na faculdade – Ana Carolina, de 23 anos, estuda fisioterapia; Luiz, de 19, cursa rádio e TV. O novo Voyage custa a partir de R$ 32,7 mil. O de Santos foi financiado em 60 meses, algo impensável até pouco tempo atrás. A família já teve um imóvel, mas há tempos paga aluguel. A soma das prestações do financiamento com as mensalidades vai apertar o orçamento, mas não tira o sono da família. “Estamos até pensando em correr atrás de uma casa própria”, diz Santos. “Já passou da hora, e agora acho que dá para buscar esse sonho.”

Segundo um levantamento conjunto das montadoras, os compradores do primeiro carro zero-quilômetro correspondiam a 10,5% do mercado em 2007, passaram a 15% em 2008 e atingiram 18% no primeiro semestre de 2009. Nesse período, o mercado de automóveis cresceu 30% – de 2,3 milhões de unidades em 2007 para 3 milhões em 2009. Cruzando as informações, fica evidente que o mercado cresce, em boa medida, movido pela entrada de novos consumidores. A maioria deles é proveniente da nova classe média.

VIAGENS DE AVIÃO

Normalmente, depois da compra da casa própria e do carro, abre-se espaço para a busca por lazer. É claro que as classes A e B dominam as estatísticas dos brasileiros que viajam pelo país, principalmente de avião. Mas a classe C está chegando com pressa – e oxigenando um setor tradicionalmente elitista. O turismo vai crescer o dobro do PIB em 2010. Uma pesquisa da FGV com as 80 maiores companhias do setor revelou no mês passado uma expectativa de expansão de 14,6% nos negócios. No caso do transporte aéreo, a previsão é de crescimento de 21,2% no faturamento em relação a 2009.

A executiva paulista Cláudia Pagnano, vice-presidente de mercado da Gol, lembra de quando tinha 18 anos de idade, estudava nos Estados Unidos e ficava chocada com o desconhecimento dos americanos em relação ao Brasil, e com o fato de que a maioria deles não tinha passaporte. Mas impressionava-se com o quanto eles viajavam internamente. O Brasil possui um espaço territorial semelhante ao dos Estados Unidos. “A diferença é que o brasileiro não conhece o país onde vive”, afirma Cláudia. “O americano é proprietário do seu país. No Brasil, quem sempre viajou foram as classes mais abastadas.” Isso está mudando rapidamente, e beneficiando a Gol, uma empresa que nasceu há nove anos com a proposta de oferecer passagens aéreas baratas e hoje detém 40,3% do mercado nacional. Atualmente, quase 40% de sua clientela pode ser enquadrada sob o rótulo de nova classe média. “É um público consciente, que pesquisa tarifas na lan house se ainda não tem computador em casa”, diz Cláudia.

A Gol criou promoções sob medida para esse público. Na compra de nove passagens, por exemplo, a décima sai de graça, um incentivo para grupos viajarem. Há parcelamento no cartão de bandeira própria Voe Fácil em até 36 vezes, com valores fixos. E conduz um trabalho educacional para orientar os muitos passageiros de primeira viagem – hoje responsáveis, em média, por 10% do movimento da Gol. Nas rotas que saem de São Paulo e do Rio de Janeiro para o Nordeste – principalmente para destinos como Salvador, Recife e Fortaleza –, é grande o fluxo de viajantes que estão indo visitar as famílias que deixaram em suas cidades de origem. É fácil identificá-los, e os comissários de bordo são treinados para facilitar a vida deles. “Aqui no Sul, dizemos que o sanduíche é de cream cheese; lá para cima, dizemos que é de requeijão”, afirma Cláudia.

No dia 9 de julho, a família Pessoa, de Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, apresentou-se cedo no aeroporto Gilberto Freyre, em Recife. Três horas depois, chegou em São Paulo, a bordo de um Boeing da Gol. Dos quatro, só Sara, a mãe, tem medo de voar. Matheus e Gabriel, de 14 e 16 anos, adoram. Brigam pela poltrona da janela. Edmilson, o pai, gosta mesmo é do custo–benefício. Foi a segunda vinda de avião da família à cidade. Tanto em 2008 quanto agora, a compra foi parcelada em seis vezes sem juros. “São quatro passagens e, como lá em casa só quem trabalha sou eu, realmente não dava para pagar de uma vez”, afirma ele. A ideia, a partir de agora, é repetir a viagem anualmente. “Não mais no inverno, viu? Sabia que ia ser frio, mas com chuva também não dá”, diz Edmilson, pouco satisfeito com o clima paulistano.

Professor de história, Edmilson, 38 anos recém-completados, está subindo na vida. Rapidamente. Trabalha hoje como coordenador de uma escola particular em Recife. Faz três anos que trocou a sala de aula pelo escritório da diretoria. Nesse meio-tempo, mudou de escola e reforçou o contracheque. No ano passado, comprou um apartamento, trocando o aluguel que sempre pagara por um financiamento da Caixa Econômica. Ainda em 2009, substituiu o carro que dirigia – comprado usado um ano antes – pelo primeiro zero-quilômetro. Sua sensação é de que, finalmente, o país avança na direção certa e as oportunidades de consumo e bem-estar estão se democratizando. “Ao meu redor, vejo que está todo mundo muito melhor”, diz.

Para ampliar as oportunidades criadas pela formação de um país de classe média para além do consumo, convém entender o significado do “american dream” – e o que mais há de aplicável à realidade brasileira. A autoria da expressão “sonho americano” é atribuída ao escritor e historiador James Truslow Adams, que a teria cunhado em 1931. Originalmente, representa um ideal igualitário. Cidadãos de qualquer classe social poderiam aspirar a “uma vida melhor, mais rica e mais feliz”.

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MODERAÇÃO NA POLÍTICA

Depois dos tempos duríssimos da Grande Depressão e dos horrores da Segunda Guerra Mundial, os anos 50 e 60 foram marcados, nos Estados Unidos, por amplo consenso entre democratas e republicanos. Não havia nem sinal da radicalização política que destroçara o país anteriormente e que se repetiria nos últimos anos, com o Partido Republicano caminhando bem para a direita e provocando um racha ideológico no país. No pós-guerra havia, sim, uma certa convergência de ideias sobre os temas mais importantes. Economicamente, o país saiu do governo de Franklin Roosevelt (1933-1945) já com seu sistema de previdência, que permitia que, pela primeira vez nos Estados Unidos, uma pessoa recebesse algo do Estado depois de chegar aos 65 anos. Foram impostos limites à atuação das instituições financeiras, e havia uma presença governamental muito maior – que os republicanos, é verdade, queriam reduzir.

O país estava assumindo, então, compromissos internacionais inéditos, com os quais jamais sonhara. A começar pela manutenção permanente de grandes contingentes de tropas na Europa e em outros pontos do globo. Isso era inteiramente novo para os Estados Unidos. Grandes somas de recursos foram destinadas ao Plano Marshall, para a recuperação da Europa, e a outros programas de ajuda à reconstrução de antigos inimigos – como a aceitação das importações de produtos mais baratos vindos do Japão. Nesse período, houve grande redução das tarifas de importação de produtos industrializados, combinada com aumentos importantes das despesas direcionadas à defesa, um estímulo governamental à continuação do crescimento. Em meio a esse gigantesco esforço, o governo, em nenhum momento, é paralisado pela luta partidária. Havia um consenso significativo, obviamente propiciado pela Guerra Fria – a ameaça também inédita da União Soviética e a bipolaridade do mundo.

A questão, neste caso, é: será que, apesar da polarização entre PT e PSDB, pode-se dizer que há consenso sobre os temas relevantes para o país? Albert Fishlow vê no Brasil de hoje um alinhamento ainda maior dos partidos políticos, em comparação ao que havia nos Estados Unidos dos anos 50 e 60. Sobretudo em torno do arranjo de política econômica herdado do segundo governo de Fernando Henrique Cardoso. “Vejo Dilma [Rousseff, candidata à presidência pelo PT] e Marina [Silva, candidata do PV] dizendo que banco central independente, superávit primário e abertura econômica são coisas necessárias para o país”, afirma Fishlow. “Há diferenças entre os partidos, evidentemente, mas nada como no passado, quando havia 15 candidatos a presidente, alguns com ideias bem malucas.” Ao que tudo indica, o Brasil caminha para um arranjo que parece ser um bipartidarismo disfarçado, com uma certa estridência no debate político, mas espaço suficiente para consenso nas questões de fundo – pelo menos as econômicas.

Pela tradição do “american dream”, ideais democráticos são percebidos como uma promessa de prosperidade para o povo. Por aqui, essa relação só agora parece fazer sentido. Durante o “milagre brasileiro” dos anos 60 e 70, a ditadura era o preço a pagar pela promessa de uma vida melhor – como na China atual. A redemocratização, por sua vez, veio acompanhada de uma década perdida em termos de crescimento econômico e desenvolvimento social. Contudo, diversos estudos recentes documentam a adesão da maior parte dos brasileiros à democracia como um valor em si. Uma pesquisa da CNI, entidade da indústria, que serviu de base para o livro A Classe Média Brasileira, não é diferente. Sessenta e seis por cento dos entrevistados de nível superior e 57% dos de nível médio dizem que a democracia é melhor do que qualquer outra forma de governo. É uma sólida maioria, mas não deixa de ser preocupante que um terço da amostra demonstre indiferença diante da natureza do regime e aceite um governo autoritário caso as circunstâncias o exijam. A preferência pela democracia é menor entre as pessoas apenas com o nível fundamental de ensino (54%) e as semiescolarizadas (44%).

“No passado, na Europa e nos Estados Unidos, a ‘indignação moral’ da classe média foi uma fonte de motivações e valores em defesa da ordem pública, inspirando movimentos de reformas institucionais e políticas contra a corrupção e o crime”, afirmam Souza e Lamounier em sua obra. Também por aqui, a camada de renda intermediária da sociedade pode ser considerada o motor de reformas políticas fundamentais. Desde os movimentos abolicionista e republicano das últimas décadas do século 19 até a campanha das Diretas Já e o impeachment de Fernando Collor. “No Brasil de hoje, o que está em questão é a capacidade da classe média de exercer real influência para conter a escalada da transgressão.” Os problemas que mais preocupam os brasileiros são, pela ordem, as drogas (72%), a violência (69%) e a corrupção (62%), deixando para atrás até a má qualidade da saúde pública (55%). A percepção generalizada é de uma escalada do crime nos últimos anos. O descrédito na Justiça é agudo. A nova classe média é tida como individualista e politicamente conservadora. Cultua o trabalho, a poupança e o enriquecimento. Suas principais demandas são educação para os filhos e um bom emprego. Aqui também existe “indignação moral”, mas ela parece estéril. Há, basicamente, um cansaço profundo diante da corrupção endêmica. “A verbalização de um sentimento de raiva acaba tomando o lugar do raciocínio, da busca de informações e da participação em associações de todos os tipos, que seria extremamente importante”, afirma Lamounier. “Os partidos políticos têm falhado consistentemente ao longo da história em oferecer um balizamento, e ninguém se politiza sem isso.”

O levantamento da Synovate confirma a descrença nos políticos. Com a ressalva de que o presidente Lula não é visto como parte de um sistema tido como corrupto e pouco confiável. Mesmo sua controversa política externa é entendida como uma alavanca positiva para a imagem do país no exterior. Reforça, portanto, a sensação de orgulho de ser brasileiro. “Lula é visto como um bom porta-voz do sucesso nacional”, diz Sérgio Pinto.

Aos poucos, o brasileiro vai exigindo tratamento de contribuinte – e exibindo a atitude de cobrança individualista do “tax payer” americano. Não é o caldo de cultura ideal para a formação de movimentos políticos organizados. “Pelo menos nos próximos cinco anos, não teremos um panelaço [como os protestos barulhentos rotineiros na Argentina]”, afirma Pinto, da Synovate. Para o brasileiro médio, o papel do governo é a manutenção do momento atual de crescimento com distribuição de renda. E quanto aos avanços esperados? Dizem respeito à melhora na educação e nas oportunidades de emprego. Ou seja, nos pré-requisitos para o desenvolvimento individual. A expectativa é de uma revolução pragmática, não ideológica. “A nova classe média demandará serviços públicos de melhor qualidade”, diz Gonçalves, da FGV. “Essa pode ser uma das consequências políticas mais importantes da emergência dessa camada da população.” Afinal, por trás do rótulo classe C estão as pessoas que dependem do transporte público, que estão mais expostas à criminalidade e à violência urbana, que só têm acesso ao serviço público de saúde e que prefeririam guardar dinheiro para viajar a pagar escolas privadas.

A década passada foi de reformas, mas de baixo crescimento. Isso não parece mais aceitável para a nova classe média, pouco disposta a engolir explicações macroeconômicas para a estagnação. A camada ascendente da população quer emprego, renda maior, carteira assinada. Quer viajar. De preferência de avião. Em suma, quer crescimento econômico. Seu maior medo é perder o emprego. Logo, mudanças de rumo bruscas, por motivos ideológicos, a desagradam. Indiretamente, criou-se um eleitor preocupado com estabilidade monetária, emprego e renda – em qualquer parte do mundo, uma vacina contra o populismo. Os Estados Unidos passaram por isso, assim como Inglaterra e França. Outros países também enfrentaram esse processo de superação de governos populistas a partir da emergência de uma classe média mais interessada no trabalho, na renda e no consumo. Tecnicamente falando, há uma mudança do eleitor mediano brasileiro. Fechou-se o abismo entre as classes A e B e os excluídos.

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NEW DEAL

“Sociedades de classe média não surgem automaticamente enquanto uma economia amadurece, têm de ser criadas por meio da ação política”, escreve Krugman. “Nada nos dados que temos sobre o início do século 20 sugere que os Estados Unidos estavam se transformando, de forma espontânea, na sociedade relativamente igualitária na qual cresci. Foram necessários Franklin Delano Roosevelt e o New Deal para fazer nascer essa sociedade.” Será, então, que os anos Lula são, de algum modo, comparáveis aos anos Roosevelt, dada essa ascensão de mais de 30 milhões de brasileiros à classe média desde 2003?

De certo modo, sim. “Em matéria de ascensão das massas, é um processo muito semelhante ao que decorreu das políticas do New Deal”, afirma o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp. Convém, no entanto, guardar as proporções. Os Estados Unidos saíam, então, de seu pior momento econômico, a Grande Depressão, que produzira um desemprego de 23% da população economicamente ativa. Diante daquele cenário, Roosevelt lançou mão de programas sociais e estimulou a sindicalização. Aos poucos, a desigualdade foi diminuindo. No Brasil, segundo estudo feito com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, a proporção de pobres na população caiu dez pontos percentuais em apenas quatro anos, baixando de 33% em 2004 para 23% em 2008. “Estou convencido de que o país só foi capaz de deixar para trás cerca de 25 anos de estagnação porque compreendeu que o crescimento econômico e a inclusão social são duas faces da mesma moeda”, escreveu o presidente Lula no prefácio ao livro Brasil – A Construção Retomada, de Aloizio Mercadante. “Foi a formação de um mercado interno de massas que retirou da pobreza absoluta 20 milhões de pessoas e incorporou nos últimos anos cerca de 31 milhões de brasileiros e brasileiras ao consumo de bens e serviços.”

É verdade, mas tal mercado não brotou do nada, no espaço de uma gestão. “O governo Lula é continuação de uma série de políticas que começaram a ser implementadas durante o governo Fernando Henrique Cardoso”, afirma Gonçalves. “Essa nova classe média, os ganhos na educação, a queda nos indicadores de pobreza e desigualdade, tudo isso tem relação com a estabilidade monetária dos anos 90 e com os programas sociais desenhados pela Dona Ruth Cardoso [primeira-dama no governo FHC, morta em 2008].” A partir dessa herança, não exatamente maldita, o governo Lula universalizou as políticas de renda. Por meio do Bolsa Família e dos aumentos sucessivos do salário mínimo. Assim, mais honesto talvez seja dizer que a soma dos governos Fernando Henrique 1 e 2 com Lula 1 e 2 equivalem à administração Roosevelt. Isso, claro, se aceitarmos a comparação mais que imperfeita dos anos 80, a década perdida brasileira, com a Grande Depressão.

Por mais que se reconheçam os avanços econômicos e sociais conquistados nos últimos 15 anos, é importante não perder de vista as frentes de batalha em que o país não se saiu bem. Para a maioria dos economistas, a principal desvantagem competitiva é o baixo patamar de poupança doméstica e, como consequência, uma taxa de investimento muito inferior à de países que estão crescendo em ritmo acelerado. A comparação é com a China, cuja taxa de poupança interna corresponde a 45% do PIB. Ou com a Índia, que já superou os 30% do PIB. Mas também com o Chile, que poupa cerca de 25%. A poupança doméstica do Brasil segue na faixa de 17% do PIB. Tem de subir seis ou sete pontos percentuais se o país quiser mesmo crescer permanentemente ao ritmo de 6% ao ano. Há também no caminho um Estado que absorve quase 40% do PIB em tributos, reduzindo o espaço para aumentar a proporção da renda do país disponível para investimentos. A questão é: qual a política possível para romper esse impasse antes que ele interrompa o ciclo virtuoso instaurado no país? Resposta: diminuir o peso do custeio da máquina pública, de modo a liberar recursos (poupança) para investimento.

Enquanto o Estado titubeia, as famílias fazem sua parte. Ao mesmo tempo em que começa a satisfazer uma demanda por conforto e consumo historicamente reprimida, o brasileiro pensa no futuro de forma responsável. De cada 100 entrevistados na pesquisa da Synovate, 62 planejam aplicar dinheiro na poupança nos próximos 12 meses. Surpreendentemente, não há diferenças expressivas por classe social. A parcela dos que se dizem dispostos a investir na bolsa é de 13%, igualmente sem diferença expressiva por classe social. Também neste caso, é inevitável uma analogia com os Estados Unidos, onde, pelo menos até a crise de 2008, virtualmente toda família de classe média tinha parte de suas economias aplicada em ações – fenômeno que explica, historicamente, boa parte do vigor do capitalismo americano.

FALTA DE EDUCAÇÃO

Nos Estados Unidos, até hoje, o sonho de subir na vida inclui a oportunidade de que as crianças cresçam, recebam uma “educação americana” e, consequentemente, oportunidades de carreira. O grande salto da educação universitária nos Estados Unidos aconteceu depois da Segunda Guerra Mundial. “Foram os veteranos, voltando da guerra, que receberam bolsas do governo para continuar estudando”, afirma Fishlow. Ele próprio nasceu na Filadélfia, filho de imigrantes que se transferiram da Rússia para os Estados Unidos antes da Primeira Guerra Mundial. Seus pais eram analfabetos. Fishlow estudou até tornar-se Ph.D. “A coisa de que mais me lembro e que acho mais importante nos Estados Unidos é essa possibilidade de uma pessoa que sai de uma família pobre chegar ao nível máximo da educação”, diz ele. “Quero ver isso acontecendo também no Brasil.”

É falsa a percepção de que nada mudou na educação. A década de 90 foi a da estabilização, sim. Mas também a do início de uma (lenta) reforma educacional com pelo menos dois resultados dignos de nota: o sucesso em colocar mais crianças na escola, praticamente assegurando a universalidade do ensino, e a introdução de mecanismos para medir o desempenho dos alunos. O Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) data de 1995. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, o número médio de anos de estudo dos brasileiros com mais de 10 anos passou de 5,2 em 1995 para 6,9 em 2007. Melhorou, mas a distância em relação à concorrência internacional é enorme. A média entre os países industrializados é de 12 anos de estudo.

De acordo com a pesquisa da Synovate, na avaliação dos brasileiros de todas as classes sociais, o principal ponto fraco do país é a educação. Se haverá mobilização, mais ou menos organizada, por alguma causa no Brasil durante o atual ciclo de crescimento, é quase certo que será a educação. Se ocorrer, essa pressão sobre o Estado será mais do que bem-vinda. A própria experiência americana mostra que o crescimento econômico não é suficiente para melhorar a qualidade do ensino. Nos Estados Unidos, os anos dourados do pós-Guerra são um período de reformas sociais, entre as quais – e principalmente – a educacional. “Sem aumento da renda, a educação não avança. Mas só isso não é suficiente”, afirma Belluzzo. “É preciso criar projetos federais, estaduais e municipais para melhorar a qualidade do ensino.”

A antropóloga Lívia Barbosa, autora de um estudo comparativo das culturas brasileira, americana e japonesa, sente falta de outro componente-chave do american dream no sonho brasileiro: a meritocracia. Faz parte do sonho americano a ideia de que quem trabalha duro e é empreendedor vai ser recompensado pela sociedade. “No Brasil, estamos longe disso”, afirma. Historicamente, o trabalho aqui não é expressão de crescimento e criatividade. Lívia vê o achincalhe à promoção dos melhores até nas letras da música brasileira. A começar pelos sambas de exaltação à malandragem dos anos 30 e 40. Sempre se cantou o trabalho como punição. Ou como um remédio amargo para se livrar de maus pensamentos, como na expressão “Cabeça vazia é oficina do diabo”. Tampouco as telenovelas, populares no país inteiro, põem o trabalho no centro das tramas. Não há um CSI ou um House brasileiros, com heróis do mundo forense ou hospitalar.

“Nos Estados Unidos, as pessoas acham que podem chegar lá. No Brasil, não só não acham, como acusam quem tem sucesso de ser corrupto”, diz Lívia. “Aqui, quem nasce rico não faz mais que a obrigação em se dar bem na vida. E quem nasce pobre não tem obrigação nenhuma.” A competição é sempre vista como algo negativo, porque confronta resultados e cria hierarquias. Nenhum movimento sindical no Brasil é a favor de meritocracia.

SONHO MINGUANTE

Por ironia, essa discussão chega ao Brasil no momento em que uma nova geração, como definiu o New York Times, vê o sonho americano minguar. Para a faixa etária de 18 a 29 anos, o desemprego é de quase 14%, aproximando-se do nível que esse grupo enfrentava na Grande Depressão. Outros 23% nem se dão ao trabalho de buscar uma vaga. Ao todo, 37% dos jovens estão desocupados, taxa comparável à dos anos 30. Muitos acabam voltando à casa dos pais, o que também reflete nas estatísticas. Em 2008, o percentual da população que vivia em residências onde estavam presentes pelo menos duas gerações subiu quase 1 ponto percentual, chegando a 16%, segundo o Centro de Pesquisas Pew. O pior resultado da história foi atingido em 1940: 24,7%. O melhor, 12%, em 1980. “Para os jovens adultos, as perspectivas no local de trabalho, mesmo para quem tem diploma universitário, raramente foram tão sombrias”, afirmou o principal jornal americano.

Em absoluto contraste, o brasileiro hoje é um povo confiante no futuro. No ranking internacional de felicidade, o Brasil ocupa apenas a 22ª colocação entre 132 países. Porém, nenhuma outra nação, de acordo com uma pesquisa do Gallup, atinge nota mais alta quando se trata de avaliar a perspectiva de felicidade futura. Quando se pede ao brasileiro que dê uma nota para si mesmo dentro de cinco anos, a resposta média é 8,7. Não há ninguém à frente. Nem os igualitários dinamarqueses, nem os espiritualizados butaneses. Muito menos os desiludidos americanos, às voltas com guerras que já consumiram US$ 1 trilhão. Sonhar grande, agora, é coisa de brasileiro.

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